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Resumo do Capítulo 4, livro “Anticâncer” do Dr.David Servan-Schreiber

Segue abaixo um trecho retirado do livro: “Anticâncer“, Capítulo 4:

Anticâncer

Capítulo 4 – As fraquezas do câncer

”Tomado pelo câncer, o organismo vive uma guerra total. As células cancerosas se comportam como bandos armados sem fé, nem lei, (…) Com seus genes anormais, elas escapam aos mecanismos de regulação dos tecidos. Perdem, por exemplo, a obrigação de morrer depois de um certo número de divisões, tornando-se portanto “imortais”. Fazem como se não escutassem os sinais dos tecidos circundantes que, alarmados pela falta de espaço, lhe pedem incessantemente que parem de se multiplicar. Pior, estes se intoxicam pelas substâncias particulares secretadas pelas células cancerosas. Esses venenos criam uma inflamação local que estimula ainda mais sua expansão em detrimento dos territórios vizinhos. (…)

De todas as variedades de células cancerosas utilizadas pelos pesquisadores, as S180 – ou células do sarcoma 180 – são as mais virulentas. Originárias de um rato específico de um laboratório suíço, cultivadas em grande número, são utilizadas no mundo inteiro para estudar o câncer em idênticas condições reproduzíveis. (…) Uma vez injetadas no organismo dos ratos, as células S180 se multiplicam a uma velocidade tal que a massa do tumor dobra a cada dez horas. Elas invadem os tecidos circundantes e destroem tudo que encontram pelo caminho. (…)

Foi um colaborador de Zheng Cui, o Dr.Mark Miller, especialista em desenvolvimento celular de câncer, que desfez o mistério. Estudando no microscópio as células S180 extraídas do abdome dos camundongos curados por milagre, ele descobriu um verdadeiro campo de batalha: no lugar das células cancerosas habituais, bojudas, felpudas e agressivas, ele via células lisas, perfuradas, marcadas em luta com os glóbulos brancos do sistema imunológico, dentre as quais as famosas “células matadoras naturais” ou NK (de natural killer em inglês). (…) Era a solução do enigma: os ratinhos resistentes tinham a capacidade de montar uma defesa poderosa graças ao seu sistema imunológico, inclusive depois da instalação completa de um câncer.

Agentes muito especiais contra o câncer

As células NK são agentes muito especiais do sistema imunológico. Como todos os glóbulos brancos, elas estão em permanente estado de patrulha dentro do organismo à procura de bactérias, vírus ou células cancerosas novas. (…) Uma vez estabelecido o contato, as NK apontam para o alvo, como a torre de um tanque, uma aparelhagem interna que transporta bolinhas recheadas de venenos.

Em contato com o indesejável, as bolinhas são liberadas e as armas químicas da célula NK – a perforina e as granzimas – são injetadas através da membrana. As moléculas de perforina adquirem então a forma de microanéis, que se reúnem para constituir um tudo por onde as granzimas penetram. Estas últimas reativam no coração da célula cancerosa os mecanismos da morte autoprogramada, como se eles lhes dessem a ordem de se suicidar. De fato, seu núcleo se parte, provocando a implosão de toda a arquitetura. (…)

A Natureza não leu nossos manuais

A equipe da Dra.Koebel demonstrou pela primeira vez em um ambiente de laboratório um conceito novo e radical no campo da oncologia. Os resultados da pesquisa sugerem que o câncer surge só das células de câncer que acham “terreno” fértil para crescer. Ou seja, as células de câncer só vão crescer dentro de um indivíduo cujas defesas imunológicas estejam enfraquecidas. (…)

Como veremos mais adiante, as diferentes pesquisas sobre a atividade dos glóbulos brancos (dentre os quais as células NK e os glóbulos brancos direcionados contra o câncer) mostram que eles ficam em seu melhor nível quando nossa alimentação é sadia, nosso meio ambiente é “limpo”, nossa atividade física emprega nosso corpo inteiro (e não apenas o cérebro e as mãos). (…)

As duas caras da inflamação

Todos os organismos vivos são naturalmente capazes de reparar seus tecidos depois de uma ferida. Nos animais e nos humanos, o mecanismo central dessa reparação é a inflamação. (…)

Tão logo um lesão afeta um tecido – pancada, corte, queimadura, envenenamento, infecção – ela é detectada pelas plaquetas do sangue que se aglutinam em torno do segmento machucado. Ao se juntarem, elas liberam uma substância química – PDGF, sigla em inglês de “fator de crescimento derivado de plaquetas” – que alerta as células brancas do sistema imunológico. Estas produzem uma séria de outros mediadores químicos de nomes estranhos e efeitos múltiplos: essas citocinas, quimiocinas, prostaglandinas, leucotrienos e tromboxanos vão orquestrar o processo de reparação. Primeiro elas dilatam os vasos adjacentes ao ferimento a fim de assegurar o afluxo de coagulação do sangue em volta do monte de plaquetas. Depois tornam os tecidos vizinhos permeáveis para que as células imunológicas possam penetrá-los e perseguir os intrusos em qualquer lugar onde se tenham instalado. Finalmente, provocam a multiplicação das células do tecido avariado para que ele reconstrua o pedaço que falta e fabrique localmente pequenos vasos sanguíneos, de forma a permitir a chegada de oxigênio e nutrientes ao local da construção. (…)

Há alguns anos sabemos que o câncer se serve precisamente de um desses mecanismos de reparação como um cavalo de Tróia, para invadir o organismo e levá-lo à morte. É essa a dupla face da inflamação: prevista para garantir a formação de novos tecidos para a cura, ela pode mudar de direção e alimentar o crescimento crescimento canceroso. (…)

Da mesma maneira que as células imunológicas agem para reparar as lesões, as células cancerosas precisam produzir inflamação para sustentar seu crescimento.

Elas começam a fabricar abundantemente as mesmas substâncias inflamatórias (citocinas, prostaglandinas e leucotrienos) que agem na reparação natural das feridas. Estas últimas atuam como adubos químicos que favorecem a multiplicação celular. O câncer vai servir dessas substâncias para induzir sua própria proliferação e tornar permeáveis as barreiras que o cercam. Assim o próprio processo que permite ao sistema imunológico reparar lesões e expulsar os inimigos em todos os recônditos do organismo é desviado em favor das células cancerosas, que vão se apoderar dele para proliferar e se propagar. Graças à inflamação, elas vão se infiltrar nos tecidos vizinhos e penetrar no fluxo sanguíneo para formar colônias a distância: as metástases. (…)

As principais influencias sobre a inflamacao. A inflamacao desempenha um papel-chave na progressao dos canceres. Nos podemos agir para reduzi-la no nosso organismo gracas a meios naturais ao alcance de todos.

Fatores de Agravamento Fatores de Protecao
Dieta ocidental tradicional Dieta mediterranea, cozinha indiana, cozinha asiatica
Acucares e farinhas refinadas Farinha multigraos
Carne vermelha de animais criados em escala industrial No maximo 3 vezes por semana, carne organica de animais criados a pasto
Oleos ricos em omega-6 (milho, girassol, cartamo, soja) Azeite, oleo de linhaça, oleo de canola
Peixes gordurosos, ricos em omega-3
Laticinios de animais criados em escala industrial Laticinios de animais criados a pasto
Ovos de galinhas criadas em escala industrial Ovos enriquecidos com omega-3 ou ovos de galinhas caipiras
Sensacao persistente de raiva ou desespero Risadas, leveza e serenidade
Menos de 20 minutos de atividade fisica por dia Caminhadas de 50 minutos 3x semana ou 30 minutos 6x semana
Fumaca de cigarro, poluicao Meio ambiente limpo

A descoberta do papel-chave da inflamação na progressão dos cânceres é ainda muito recente. (…) Simplesmente, temos que eliminar as toxinas pró-eliminatórias de nosso meio ambiente, adotar uma alimentação voltada para o combate do câncer, cuidar de nosso equilíbrio emocional e satisfazer a necessidade que nosso corpo tem de se mexer e gastar energia. (…)

É pouco provável que nossos médicos sugiram estas abordagens. Mudanças no estilo de vida não podem, por definição, ser patenteadas. Portanto, não se tornam medicações e não precisam de receita médica. Isso significa que a maioria dos médicos não as considera de sua alçada, então depende de nós fazer nossas próprias mudanças. (…)”

Retirado do livro: “Anticâncer”, 2011 – Editora Objetiva, de David Servan-Schreiber [Comprar o livro]

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Resumo do Capítulo 2, livro “Anticâncer” do Dr.David Servan-Schreiber

Segue abaixo um trecho retirado do livro: “Anticâncer“, Capítulo 2:

Anticâncer

Capítulo 2 – Fugir das Estatísticas

”Stephen Jay Gould era professor de zoologia, especialista em teoria da evolução, na Universidade de Harvard. Era também um dos cientistas mais influentes de sua geração, considerado por muito como o segundo Darwin por ter apresentado uma visão mais completa da evolução das espécies.

Em julho de 1982, com 40 anos, ficou sabendo que sofria de um mesotelioma do abdome – um câncer grave e raro, que é atribuído à exposição ao amianto. Depois da operação, pediu à sua médica para lhe indicar os melhores artigos técnicos sobre o mesotelioma. Embora tivesse sido até então sempre muita direta, a oncologista lhe respondeu evasivamente que a literatura médica não tinha nada de verdadeiramente valioso sobre o assunto. Mas impedir um universitário de vasculhar a documentação sobre um tema que o preocupa é um pouco, como escreve Gould, recomendar a castidade ao Homo sapiens, de todos os primatas o mais interessado em sexo. (…)

Stephen Jay Gould morreu vinte anos depois, de outra doença. Teve tempo de concluir uma das mais admiráveis carreiras científicas de seu tempo. Dois meses antes de morrer, ainda assistiu à publicação de sua obra máxima, A Estrutura da Teoria da Evolução. Sua sobrevida foi trinta vezes maior do que os oncologistas haviam previsto.

A lição que nos oferece esse grande biólogo é límpida: as estatísticas são uma informação, não uma condenação. (…)

Se os pacientes estiverem bem-informados sobre a doença, se cuidarem do corpo e da mente e se receberem a alimentação de que têm necessidade para estar em melhor condição de saúde, então as funções vitais do corpo vão se mobilizar para melhor lutar contra o câncer. Eles viverão melhor e por mais tempo. (…)

Algum tempo depois, a prova foi trazida pelo Dr.Dean Ornish, professor de medicina da Universidade da Califórnia em São Francisco e grande precursor da medicina complementar. (…)

A melhor prova da existência de uma relação entre as mudanças do estilo de vida e a parada da progressão do câncer é o fato de que quanto mais os homens assimilaram os conselhos do Dr.Ornish e os aplicaram assiduamente em existências cotidianas, mais seu sangue ficou ativo contra as células cancerosas! (…)

Na Universidade de Montreal, uma equipe liderada pelo Dr.Parviz Ghadirian estudou mulheres que era portadoras de genes do tipo BRCA-1 e BRCA-2 – genes que apavoram muitas mulheres, porque quase 80% das portadoras sofrem o risco de desenvolver câncer de mama ao longo da vida. (…) A grande descoberta deles? Quanto mais frutas, legumes e verduras essas mulheres que corriam risco genético comiam, menor era a chance de desenvolver câncer. (…)

Na Universidade de São Francisco, a equipe do professor John Witte fez uma descoberta similar sobre o câncer da próstata. (…) quando os homens que portavam tais genes consumiam peixes gordurosos ricos em ômega-3 pelos menos duas vezes por semana, os genes permaneciam sob controle. Os cânceres deles tinham cinco vezes menos probabilidade de se tornarem agressivos do que os dos homens que não comiam peixes gordurosos.

Essas descobertas recentes apoiam a idéia de que os “genes do câncer” podem não ser tão perigosos se não forem desencadeados por estilos de vida. (…)

Não existe abordagem natural capaz de, sozinha, curar o câncer. Mas também não existe destino fechado. Como Stephen Jay Gould, todos nós podemos olhar as estatísticas em perspectiva e visar “a longa calda direita da curva”. O melhor caminho, para quem quer alcançar este objetivo ou simplesmente se proteger contra o câncer, é aprender a melhor utilizar os recursos do corpo e a viver uma vida mais rica. (…)

A ameaça que o câncer faz pesar nos cega tanto que temos dificuldade em perceber sua fecundidade. Quanto a mim, de muitas maneiras, a doença me transformou a vida. A um ponto que eu nunca poderia ter imaginado quando acreditei que estava condenado. (…)”

Retirado do livro: “Anticâncer”, 2011 – Editora Objetiva, de David Servan-Schreiber [Comprar o livro]